segunda-feira, 11 de novembro de 2013

O que vem depois da morte?

Antonio Nunes de Souza*

Segundo as diversidades das diretrizes religiosas, nossos destinos são determinados pelos nossos comportamentos, fé e as regras de cada instituição divina. Mas, no caso de Joãozinho Santana, a coisa foi diferente e, mesmo sem a alma ter tido tempo de chegar a se arrumar para a viagem eterna, a confusão começou a rolar de tal maneira que, pelo visto, mesmo morto e no caixão ele deve ter se cagado todo com esse desfecho de um segredo que ele imaginava estar levando para o túmulo. Algumas correntes dizem que, mesmo depois de morto, o indivíduo continua ouvindo as conversas, apenas não podendo se mexer e nem falar nada! Acho isso uma sacanagem fúnebre das piores!
Ao lado do seu bonito caixão de madeira de lei, visor panorâmico de vidro na parte do rosto, castiçais de prata, flores em profusão e dezenas de coroas enviadas por amigos e empresas que o admirava, estava lá sua esposa toda se esvaindo em lágrimas e soluços, sofrendo amargamente por aquele homem maravilhoso, pai de família exemplar, marido fiel até a alma, como também um filho dedicado aos seus velhos pais. Todas as amigas em volta da triste e debilitada, consolando-a carinhosamente, sempre usando os clichês habituais: É isso mesmo minha filha. Deus só leva os bons! – Estamos todos ao seu lado para ajudar você dar a volta por cima e compreender melhor às vontades divinas! E mais outras frases de bolso usadas nessas ocasiões.
Então, mais que inesperadamente, surge na entrada da capela onde estava acontecendo o velório, uma bonita mulher com uma criança no colo e segurando outra com aproximadamente uns oito anos. E, sem nem pedir licença, foi-se aconchegando do caixão aos berros e choros, gritando fortemente; Meu Deus, por que não me levou no lugar dele? Meu amor não merecia isso, morrer tão jovem vítima de acidente! Pelo escândalo percebia-se claramente tratar-se de uma suburbana sem classe, daquelas que desmaiam, saem carregadas, tem que cheirar água de colônia, álcool, etc. A viúva chocada com a cena, falou para ela que ela devia ter se atrapalhado com a sentinela, uma vez que são muitas as divisões da capela para essas finalidades.
-Nada disso minha filha! Meu marido João Santana, pai de minhas duas filhinhas, morreu num acidente e eu soube apenas há algumas horas e, mais que depressa vim ver e resolver seu funeral. Mas, pelo visto, seus amigos já providenciaram tudo.
-Não pode ser a mesma pessoa, pois somos casados há dez anos, temos três filhos e somos muito felizes.
-Eu sou casada com ele há oito anos, moro em Itapetinga e ele como é viajante vendedor, passa a semana comigo e nos fins de semana, volta para Itabuna para apresentar os resultados das suas vendas e recebimentos, além dos novos pedidos. Essa era a maneira que ele traçou para atender as duas famílias!
Aí, com esse encontro inesperado e a notícia que João era um descarado bígamo, a viúva desmaiou, a confusão tomou conta do ambiente, uns sorriam e outros choravam, enquanto o mulheril solidário com situação, já que ambas as mulheres foram enganadas, dava o maior apoio as duas famílias, procurando conciliar uma situação inusitada para uma cidade do interior.
Chegada a hora do enterro, todos perplexos com o ocorrido, já que Joãozinho era considerado um exemplo de marido, resolveram silenciar naquele momento e discutir o assunto posteriormente. Os pesamos foram divididos e todos que olhavam para seu caixão na hora que descia para a sepultura, podia-se ler em seus rostos o pensamentos a seguinte expressão: Joazinho foi um cara filho da puta!
Até hoje as duas brigam pela divisão dos seguros, previdências e alguns  bens pertencentes ao marido enganador!


*Escritor – Membro da Academia Grapiúna de Letras de Itabuna – antoniodaagral26@hotmail.com

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