sábado, 1 de junho de 2013

Como encontrei a felicidade!


Antonio Nunes de Souza*
 

Não posso deixar de confessar minha felicidade, depois que passei momentos de tristeza e depressão quando caiu minha ficha, vendo que tinha perdido meus antigos encantos e como realmente fiquei com a aparência que estavam me rotulando com naturalidade de coroa. Tenho certeza que, por mais que digam que não, essa denominação fode com a moral de qualquer pessoa que passa dos quarenta. E eu, sem que sentisse ou pressentisse, já estou nos quarenta e cinco e, como tive o privilégio de ter nascida linda, charmosa, corpo invejável daqueles que a gente ouve toda vez que passa, a expressão chula de: Gostooooosa! Eu fechava a cara, mas, por dentro o ego ia lá “pras cabeceiras” de alegria.
Por conta dessa aparência bonita e disputada por todos os rapazes, não me preocupava com academias, exercícios, alimentação ou nenhuma dessas coisas que a moda todos os dias impõe para nos escravizar e gastar dinheiro. Achava eu que minha beleza iria perdurar e, por essa razão idiota, fazia o maior cú doce com os caras, escolhendo demais e deixei de dar dezenas de transadas legais que hoje me arrependo, mas, fodeu-se que o tempo já passou.
Resultado: Com vinte e três anos, terminei casando com um cara babaca, vivemos uns dois anos, tivemos uma filha e depois nos separamos, pois vi que não era isso que eu queria, principalmente o idiota que escolhi como marido (me lembrei do que minha mãe dizia sempre: Quem muito escolhe, pega no pior). E eu, com meu cú doce, terminei na amargura. Porém, dei a volta por cima, tinha feito faculdade, fui trabalhar e cuidar da minha nova vida e da minha filhinha.
O tempo passou, minha filha formou-se, casou-se e foi cuidar da sua própria vida. Então, como me anulei completamente, preocupando-me em lhe dar uma boa educação, depois da sua saída de nossa casa que, um dia olhando-me no espelho, pude perceber, em vista do que eu era, o bagulho que me transformei.
Rapaz! Tomei um susto do caralho! (não sou de dizer nomes feios, mas, somente esse daria a dimensão para enfatizar como eu estava e como me senti naquele momento). Imediatamente tomei a decisão que, urgentemente, iria para uma academia que colocasse as coisas nos lugares. Porém, fazendo uma análise mais detalhada, vi meus peitos que no passado eu os levantava e colocava um cotonete embaixo e, quando eu os soltava, o cotonete caía. E, sem exagero, se eu os levantasse e colocasse uma latinha de coca-cola, poderia solta-los e sair correndo que a porra não iria cair. Fiquei de perfil e foi aí que a tristeza aumentou! Minha bunda estava mais caída que a moral de Zé Dirceu e ainda cheia de celulites. Meu Deus! Será que eu estava cega esse tempo todo? E estava mesmo, pois, ao olhar para as pernas, minhas coxas pareciam um mapa geográfico de tantos vasos e varizes que batiam dos calcanhares até o pé da boceta (se é que boceta tem pé). A essa altura qualquer nome feio que eu dissesse era pouco para o muito da desesperada situação. Meu rosto não tinha pés de galinha (você que está lendo diz: Ainda bem!). Mas, nada rapaz, tinha era pés de dinosauro de tão marcados que eram. Parecia a Avenida Nove de julho em Bueno Aires, que é a mais larga do mundo e tem várias vias em diversas direções. Minha barriga até que não estava grande demais, mas. em compensação, nas laterais eu tinha mais pneus que box de fórmula um. Passei as mãos e a porra parecia um tobogã de tantas ondulações.
Não nego que comecei a chorar de desgosto, lembrando de quando eu fui miss em minha cidade. E, de repente, quando aproximei o meu rosto do espelho para enxugar as lágrimas, horrorizada, percebi que tinha duas enormes bolsas embaixo dos olhos, que pareciam aquelas conchas que servem siri catado nas praias. Embaixo do queixo havia um papo tão filho da puta, que dava a impressão que eu tinha acabado de engolir uma laranja e ela estava entalada em minha goela.
Caí na cama chorando torrencialmente, determinando-me que, antes de tudo, iria a um cirurgião plástico para fazer uma reforma geral, custe o que custasse, mesmo que tivesse de vender o carro ou fazer um empréstimo bancário.
Tinha uma amiga enfermeira chamada Naty que conhecia bem a área médica e ela me indicou um cirurgião bom e famoso, para eu não cair nas mãos de um desses filhos da puta, que deixam a gente parecendo a filha de Frankstem.
Acertei todos os detalhes, pedi uma licença no trabalho e, cinco dias depois de ter feito uma batelada de exames, já estava entrando na clínica para iniciar a fazer minha reforma geral, jurando que só sairia de lá depois de todos os procedimentos executados, pois, por morar sozinha, seria importante ficar sobre os cuidados da clínica durante as recuperações.
Cara! Fui mais fatiada do que pão de fôrma! Só não tomei talho na boceta porque já existia. Mas, no resto do corpo, o bisturi a laser chegou a ficar cego de tanto trabalho. Fiquei mais enfaixada que a múmia de Tutakamom. A única parte descoberta eram os olhos. Não posso deixar de dizer que estava com um medo filho da puta da porra não dar certo. Mas, minha amiga Roberta, para me acalentar, quando olhava para meus olhos esbugalhados, como se eu estivesse tomando no cú sem vaselina, sempre me dizia que ficasse calma que tudo ia dar certo.
Os dias foram passando, passando, os curativos minimizando, comecei a ver que estava mais inchada do que corpo de afogado. Mas, para me tranqüilizar, o médico disse que era normal até as completas cicatrizações.
Cada dia minha expectativa aumentava mais, até que um mês e meio depois, já sem nenhum curativo no corpo, mesmo tendo que depois continuar algum tempo usando umas faixas, pedi ao médico para eu olhar-me completamente nua. Depois da insistência, ele atendeu meu pedido e, quando juntamente com a enfermeira me olhei no grande espelho, dei um sorriso tão largo que quase desmanchava o bordado que foi feito no meu rosto. Mesmo com algumas inchações eu estava uma outra pessoa, bonita e com tudo nos devidos lugares.
Hoje, um ano depois, já completamente restabelecida das cirurgias, sem marcas ou cicatrizes, tenho que confessar para todos a minha plena felicidade de estar inteiríssima e, seguindo os conselhos sábios daquela minha amiga enfermeira, estou cuidando do meu corpo e minha alma através de aulas de bio-dança, com uma professora competentíssima na área, que nos deixa com o ego pra lá de Bagdá e uma leveza de espírito que nos enche de vontade de viver intensamente, colocando todas as nossas ansiedades e inseguranças pra fora e, conseqüentemente, todos os homens pra dentro.
Estou, seguramente, vivendo uma plenitude de vida que jamais imaginei voltar a ter, graças os conselhos sábios de minha amiga, direcionando-me para a magia da bio-dança, que eu, na minha ignorância, imaginei ser um desses modismos que a mídia nos impõe.
Pó! Distrai-me escrevendo e já está encima da hora de minha aula de bio-dança que não falto nunca, pois, além de divertida e salutar, minha professora Mara é maravilhosa.


*Escritor (Membro da Academia Grapiúna de Letras) – antoniomanteiga.blogspot.com – antoniodaagra26@hotmail.com


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